EM RESUMO
Preparar-se adequadamente para a perícia médica do INSS aumenta a qualidade da avaliação técnica. As recomendações práticas se concentram em: reunir documentação médica completa e atualizada, organizar tudo em ordem cronológica, chegar com antecedência ao local da perícia, responder objetivamente sem dramatizar nem minimizar, e apresentar a realidade clínica com honestidade. Preparação não substitui a base clínica do caso — apenas reduz risco de indeferimento por motivos formais.
Conteúdo orientativo. Preparação adequada não garante resultado favorável.
Antes da perícia — preparação documental
A maior parte das chances de êxito (ou de problema) está na qualidade da documentação apresentada. Recomendações:
Reunir documentos médicos atualizados
- Relatório do médico assistente (idealmente menos de 6 meses) com diagnóstico completo (CID-10), histórico da doença, tratamentos realizados e resposta, limitações funcionais específicas, prognóstico
- Atestados anteriores, em ordem cronológica
- Laudos de exames complementares atualizados
- Receituários de medicamentos em uso, especialmente uso contínuo
- Laudos de internações se houver
- Comprovantes de cirurgias e procedimentos realizados
- Relatórios de fisioterapia, psicologia, terapia ocupacional quando aplicável
Organizar em ordem cronológica
Documentos misturados são piores do que documentos faltando. Sugerimos pasta única (física ou digital) com documentos do mais antigo ao mais recente, separadores por tipo (atestados, exames, laudos), lista índice no início com data e descrição de cada documento, e cópias (leve originais para conferência).
Verificar legibilidade e assinaturas
- Verificar se todos os atestados têm CID, data, assinatura e CRM
- Solicitar cópias atualizadas de documentos importantes que estejam desgastados
- Se um documento crítico estiver ilegível, pedir nova via ao médico que emitiu
O que levar no dia da perícia
Obrigatórios
- Documento de identidade com foto (RG, CNH, passaporte, carteira profissional)
- CPF
- Comprovante de agendamento da perícia (impresso ou no celular)
Importantes
- Toda a documentação médica reunida
- Lista de medicamentos em uso (nome, dose, frequência)
- Caneta
Quando aplicável
- Carteira de Trabalho (CTPS) ou CNIS
- Comprovantes de pagamento do INSS (autônomos, MEI)
- Comprovantes de afastamentos anteriores
- CAT (Comunicação de Acidente de Trabalho)
- PPP (Perfil Profissiográfico Previdenciário) em casos ocupacionais
No dia da perícia — como se comportar
Chegada
- Chegar com 30 minutos de antecedência à Agência da Previdência Social (APS)
- Estacionar em local seguro — atrasos podem implicar perda do agendamento
- Confirmar com a recepção da APS o agendamento e a sala
- Aguardar na sala de espera; aproxime-se quando seu nome for chamado
Durante a entrevista
- Cumprimente o perito com respeito
- Responda às perguntas de forma objetiva, na ordem feita
- Diga a verdade — peritos têm treinamento para identificar exageros e minimizações
- Descreva sintomas reais, sem dramatizar nem omitir
- Mencione tratamentos realizados, mesmo aqueles sem sucesso
- Não interrompa o perito; espere a pergunta ser concluída
Durante o exame físico
- Permita os exames solicitados (movimentos, reflexos, palpação)
- Se algum exame for desconfortável, avise que sente dor — não force movimentos
- Não simule limitações que não tem nem esconda sintomas reais
- Se houver dor intensa real, comunique explicitamente
Durante a análise documental
- Apresente toda a documentação organizada
- Se o perito não pedir um documento específico que você considera importante, mencione sua existência educadamente
- Não retenha documentos com receio — quanto mais informação técnica disponível, mais qualificada a avaliação
O que NÃO fazer — 10 erros que prejudicam a perícia
Erros mais comuns que costumam levar a indeferimentos, mesmo quando há base clínica real:
1. Mentir sobre sintomas
Inventar dores, limitações ou queixas que não existem é o erro mais grave. Peritos detectam inconsistências facilmente — entre exame físico e queixa relatada, entre comportamento na sala de espera e durante o exame, entre documentos antigos e relato atual.
2. Dramatizar exageradamente
Aumentar a intensidade de sintomas reais (“não consigo nada”, “estou totalmente paralisado”) quando há atividades preservadas costuma soar artificial.
3. Minimizar sintomas reais
O contrário também é frequente — segurados que omitem sintomas por vergonha ou pelo desejo de “parecer bem”. Subestimar a gravidade prejudica o caso.
4. Apresentar documentação fraca
Atestados de menos de 30 dias quando o quadro é antigo, sem CID, sem descrição funcional, sem carimbo, são mal recebidos pelo perito.
5. Apresentar documentos contraditórios sem reconciliar
Quando atestados de profissionais diferentes apresentam diagnósticos divergentes ou tempos de afastamento incompatíveis, peritos tendem a desconfiar do conjunto.
6. Atrasar
Atrasar à perícia pode implicar perda do agendamento e reagendamento por meses. Em alguns casos, indeferimento por ausência.
7. Levar acompanhante “ensaiando” o que dizer
Acompanhantes que respondem pelo segurado ou tentam intervir nas respostas costumam piorar a avaliação. Acompanhante deve ficar em silêncio salvo quando o perito pedir esclarecimento.
8. Esquecer documentos importantes em casa
Especialmente exames recentes, atestados detalhados ou laudos de internação. O perito avalia o que está na mesa.
9. Tentar negociar com o perito
Argumentar emocionalmente (“eu preciso desse benefício”, “minha família depende”, “meu chefe vai me demitir”) não funciona. O perito analisa critérios técnicos, não argumentos pessoais.
10. Cancelar tratamentos antes da perícia para “parecer mais doente”
Erro grave. Suspender medicamentos ou tratamentos para piorar o quadro pode caracterizar fraude e gerar problemas administrativos e criminais. Além de ser perigoso para a saúde.
Mitos perigosos sobre a perícia médica do INSS
Mito 1: “Tenho que parecer pior do que estou”
Falso. Peritos avaliam consistência entre relato, exame físico e documentação. Exageros são detectados e prejudicam a credibilidade.
Mito 2: “Se o perito for grosso, está negando o benefício”
Falso. O estilo de comunicação do perito não determina a conclusão técnica. Peritos têm estilos diferentes; alguns são objetivos e formais, outros mais cordiais. Importa a análise técnica.
Mito 3: “Quanto mais documentos, melhor”
Parcialmente verdade. Documentos relevantes ajudam, mas documentos repetidos, irrelevantes ou desorganizados podem prejudicar ao dificultar a análise. Organização e relevância contam mais que volume.
Mito 4: “O perito não pode discordar do meu médico”
Falso. O perito tem autonomia técnica e pode chegar a conclusões diferentes do médico assistente — inclusive porque os papéis são diferentes (assistente trata; perito avalia capacidade laborativa).
Mito 5: “A perícia do INSS é sempre desfavorável”
Falso. A maioria das perícias resulta em deferimento de algum benefício. Indeferimentos costumam ocorrer em situações específicas — quadros leves, documentação inadequada, perda de qualidade de segurado, falta de carência.
Mito 6: “Se eu trabalhar antes da perícia, será negada”
Parcialmente. Trabalho compatível com a condição clínica não invalida benefício. O ponto é: a doença impede o trabalho habitual? Trabalhar com adaptações ou em períodos curtos não necessariamente prejudica.
Mito 7: “Tenho que parar todos os tratamentos antes da perícia”
Falso e perigoso. Suspender tratamentos pode caracterizar fraude e piorar a saúde sem ganho real. Manter tratamento adequado e documentar os efeitos é o caminho correto.
O papel do médico assistente antes da perícia
O que pedir ao médico assistente
- Relatório atualizado descrevendo o quadro completo
- Lista clara das limitações funcionais específicas para sua atividade laboral
- Histórico dos tratamentos realizados
- Justificativa para qualquer recomendação de afastamento
- Prognóstico realista
O que NÃO pedir ao médico assistente
- “Coloca aí que eu não consigo nada” (mentir é prejudicial e antiético)
- “Exagera nos sintomas” (mesmo problema)
- “Diz que vou ficar afastado por muito tempo mesmo sem saber” (sem base técnica)
Médicos assistentes têm ética profissional e não devem produzir documentos em desacordo com a realidade clínica.
Quando contratar assistente técnico médico antes da perícia
A contratação de assistente técnico médico antes da perícia administrativa do INSS é menos comum do que após indeferimento, mas pode agregar valor em situações específicas:
- Casos clinicamente complexos com múltiplas doenças
- Doenças com critérios técnicos restritivos (psiquiátricas, neurológicas progressivas, dor crônica, fibromialgia)
- Histórico extenso de documentação que precisa ser organizada e analisada
- Documentação contraditória que precisa ser reconciliada
- Preparação para perícia decisiva (revisão de benefício, perícia para aposentadoria por invalidez)
Saiba mais — Assistência Técnica Judicial Médica →
Perguntas frequentes
1. Quanto tempo antes da perícia devo me preparar?
Ideal 1-2 semanas: solicitar relatório atualizado ao médico assistente, atualizar exames defasados, organizar documentação cronologicamente, eventualmente consultar assistente técnico.
2. Devo levar acompanhante?
Em geral, não é necessário. Vale levar em casos de dificuldade de locomoção, idade avançada, deficiência intelectual ou comunicação prejudicada, transtornos psiquiátricos graves. Acompanhante geralmente fica na sala de espera; só é admitido junto quando há necessidade evidente e o perito autoriza.
3. Posso pedir para o perito repetir a pergunta?
Sim. Não há problema em pedir esclarecimentos se não entendeu a pergunta. Respostas precisas são melhores que respostas rápidas.
4. O perito pode me fazer perguntas pessoais?
Sim, dentro do escopo da avaliação. Pode perguntar sobre rotina, atividades domésticas, profissão, vida pessoal — tudo na lógica de avaliar capacidade funcional. Recuse responder se considerar invasivo ao ponto de violar dignidade.
5. E se eu chorar ou ficar nervoso?
Reações emocionais legítimas são parte do quadro. Peritos estão habituados. Não tente forçar choro nem reprimir reação genuína. Se precisar de pausa, peça.
6. Posso usar muletas, cadeira de rodas ou colar cervical se realmente preciso?
Sim. Use qualquer dispositivo de apoio que utilize normalmente. Não simule uso de dispositivo que não usa habitualmente — isso costuma ser detectado e prejudica gravemente.
7. Como saber se a perícia foi favorável?
O perito não comunica conclusão durante o ato. A decisão sai no Meu INSS em alguns dias úteis após a perícia.
8. O perito pode pedir para eu fazer mais exames?
Sim. Em alguns casos, o perito solicita exames complementares antes de concluir, dando prazo para apresentação.
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Conteúdo revisado clinicamente por Dr. José Henrique Sandoval Gonçalves
Médico Perito Federal e Estadual | Especialista em Clínica Médica e Medicina de Família e Comunidade
CRM 23826/DF | CRM 26277/SC
Última revisão: maio de 2026